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Motivação

 

 

BOLA PARA FRENTE!

 

(clique aqui para ler a Parte I)

 

(Parte II)
Nada se cria, tudo se transforma
Segundo Jung, a energia psíquica se comporta como a energia física em um sistema fechado, não pode ser perdida nem criada, apenas transformada. Diz: "nenhum valor psíquico pode desaparecer sem que seja substituído por outro". Por isso mesmo, muito cuidado para canalizar adequadamente sua energia psíquica, pois quando a mesma escapa do controle pode provocar alguns estragos. 
Jung relata o tratamento de um paciente que, quando foi abandonado por sua noiva, que o trocou por outro, teve, inicialmente, uma reação indignada, mas cheia de energia construtiva, de alguém que deseja ir à forra, dar a volta por cima e não se deixar abater por esse infortúnio. No entanto em lugar de fazer isso, ele deprimiu-se, abandonou a idéia de reagir e passou a apresentar sintomas físicos, com dores que não eram explicadas clinicamente. A energia foi canalizada para o corpo, e o castigou. 
Perceba a importância da "bola pra frente". A energia que estávamos dedicando a um projeto que terminou, ou fracassou, deve ser desviada para outro, sob pena de transformarmos essa energia em uma fonte destrutiva da autoestima e do próprio corpo. Os complexos nada mais são do que "nós" de energia. Auto-imagens que criamos a partir de momentos mal resolvidos, que não conseguimos superar e reagir aos choques externos. Baixa resiliência absorve a energia e não a devolve em forma de movimento. Interioriza e somatiza, transformando frustração em doença. 
Não é incomum que a gente sinta essa sensação desagradável de não estar gostando do que está acontecendo, e nesses momentos olhamos pra frente e vemos uma espécie de encruzilhada que se abre em dois caminhos, ambos misteriosos, e sabemos que um deles, com certeza, vai nos levar a sair do estado deplorável em que nos colocamos, ou nos colocaram. O problema é encontrar força e sabedoria para escolher o caminho certo, pois ir para o lado errado é uma forte tendência. Você já percebeu como tem gente que teima em escolher o lado errado da encruzilhada, e vai por aí repetindo os erros e semeando lamúrias para colher compaixões? 
O sábio persa Zaratustra disse, há muitos séculos, que há momentos na vida de um homem que não basta ser apenas um homem, precisa ser um super-homem. E isso significa que ele precisa encontrar forças para vencer seus inimigos, mas alerta que nossos piores inimigos não são os de fora, mas os de dentro de nós mesmos, os "inimigos internos", e entre eles estão o medo, a ignorância e a indolência. Portanto, "bola pra frente" não significa chutar de qualquer maneira, obedecendo ao desespero, e sim organizar a energia interna e concentrá-la no ato de reagir e continuar a vida de maneira mais coerente com os resultados que desejamos alcançar.

Apenas uma palavra
Nosso povo é acolhedor e dado ao relacionamento humano fraterno. É cheio de tiradas e frases de efeito, que podem alegrar, indignar, ridicularizar ou entusiasmar. Abraçar um amigo que se encontra em um momento especialmente ruim e dizer-lhe simplesmente: "bola pra frente, meu caro, que a vida continua", pode parecer um conjunto de palavras vazias, mas pode - e comumente o faz -, ter o efeito de mobilizar a energia psíquica da pessoa que, motivada pela decepção ou pela dor, estava retida e ameaçava transformar-se em energia destrutiva. 
Em seu belo livro "O velho e o mar" Ernest Hemingway relata a história de Santiago, um velho pescador cubano, que trava contato com dois infernos. O primeiro inferno foi a ausência de sorte, que o levou a ficar oitenta e quatro dias sem pescar um peixe sequer. Diziam os outros pescadores que ele havia se transformado em um salao, que em sua linguagem significava um azarento da pior espécie. 
Essa fase ruim levou Santiago a conhecer a penúria, e sua tristeza ficou maior quando perdeu seu auxiliar, um garoto que o ajudava e o admirava, e que se transferiu para um barco de melhores resultados. Mas Santiago não é homem de lamúrias, muito menos de desistências. Parte sozinho para alto mar, sentindo falta do garoto, mas acompanhado por uma forte certeza de que "hoje será um grande dia para a pesca de marlins". 
O segundo inferno ele conheceu após ter visitado o céu. Fisgou um peixe enorme, com o qual travou uma batalha de três dias. Conseguiu vencê-lo, trazê-lo até o pequeno barco, e amarrá-lo ao costado, pois dentro não cabia, uma vez que era maior que o próprio barco. Santiago era só contentamento. 
Foi quando começou o novo martírio. Tubarões, atraídos pelo sangue do peixe morto, começaram a aparecer a arrancar-lhe pedaços. Santiago ainda conseguiu matar três e, em um momento gritou alto: "um homem pode ser destruído, jamais vencido". Continuou a lutar com o que lhe restava de forças e de ferramentas. Todo em vão, pois os tubarões não paravam de chegar e, quando finalmente atingiu a praia estava arrastando um enorme esqueleto inútil. 
A cena que segue é repleta de tristeza, mas é bela. Seu amigo, o garoto aprendiz, o procura, declarando sua preocupação com o desaparecimento do mestre por três dias, e lhe diz que vai voltar a pescar com ele, pois quer aprender mais. Santiago, desolado diz "não é mais possível, a sorte me abandonou por completo". E o garoto retruca: "não se preocupe, eu levarei a sorte comigo". Este argumento foi o suficiente. 
A desesperança de Santiago durou apenas uma frase. Na seguinte ele já disse: "precisamos de uma nova lança. Podemos fazê-la com qualquer chapa de aço de um velho Ford". E seguiu dizendo que ainda haveria pelo menos três dias de brisa forte, e que deveriam ser aproveitados. A sorte voltaria, trazida pela brisa da esperança. E foi como a vida deve ser; sempre pra frente...

Fonte: Site de Eugênio Mussak: www.eugeniomussak.com.br
(Texto publicado sob licença da revista Superinteressante, Editora Abril.)

 

 

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