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Motivação

 

 

BOLA PARA FRENTE!

 

(Parte I)
Tem dias que a gente convive com uma sensação incomoda de que era melhor não ter levantado da cama. As horas custam a passar e ficamos com a impressão de tudo parou, pelo menos em nossa vida. Se fossemos poetas, como o Chico, diríamos algo como: "tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. A gente estancou de repente, ou foi o mundo então que cresceu...". 
Não importa o que você faça, qual seja sua profissão e seu grau de sucesso, você certamente já experimentou esse sentimento de que algo está errado e que, provavelmente, nada mais dará certo. Não há ninguém no mundo que já não tenha sentido o gosto do fracasso, da perda, da desesperança. Os motivos podem ser os mais diferentes, desde a perda do emprego, até o fim de um amor, ou mesmo a percepção de que um sonho antigo, tão querido e acalentado, provavelmente não se realizará. 
Em grau maior, às vezes ficamos pasmos e mudos diante das notícias do jornal a respeito do que estão fazendo com nosso mundinho em todos os lugares. Desde o bairro aqui do lado, onde um crime passional aconteceu, até aqueles paises onde o fundamentalismo mostra as (feias) caras.
Tem dias que parece que a nossa bola parou de rolar. Ou pior, parece que estamos quase fazendo um gol contra. Muito cuidado nessa hora. É melhor baixar a emoção por um instante, conter o ímpeto de fazer a primeira loucura que passa pela cabeça, e só então decidir e, claro, mandar a bola pra frente, que é para onde ela sempre deve estar indo, em direção ao seu destino. 
Vamos ser honestos: este texto, apesar de ser uma prosa, parece que está tentando parecer poesia, não é mesmo? Apelando para emoção, citando uma frase musical e lembrando uma das expressões idiomáticas mais utilizadas em nosso país - bola pra frente! Pois é, mas apesar dessa aparência romântica, estamos tratando de um assunto tão sério quanto corriqueiro, afinal, a necessidade que temos de olhar para frente enfrentando a carga de forças contrárias, é muito grande. 
Quando comecei a pensar neste tema, detive-me em uma auto-análise, tentando lembrar quantas vezes eu vivi essa situação de ter que engolir seco e continuar o jogo, apesar das circunstâncias. Conversando com amigos, recebi a mesma informação. Todos relatam coleções de momentos de retomada do jogo. Um chegou a me dizer: "eu nunca saí do jogo, mas parece que o estou começando quase todos os dias". 
Pensando bem, é isso mesmo o que fazemos o tempo todo: começamos o jogo de novo. Quem não tem a energia necessária para esse eterno começar fica de fora do jogo e, claro, perde. E haja energia...

Energia para continuar
De modo geral, todos sabem o que é energia, e que resultados ela produz. E sabem também que a energia pode se manifestar de diversas formas: térmica, mecânica, elétrica, nuclear, etc. Vale lembrar que existe uma lei explicando que a quantidade total de energia no Universo, que é um sistema fechado, nunca se altera, só se transforma de um tipo em outro, e isso acontece o tempo todo. E também vale lembrar que nós todos possuímos dentro de nós uma energia só humana, a "energia psíquica". 
O ser humano, de acordo com Jung (Carl G. Jung, 1875-1961), produz e depende desse tipo particular de energia para manter a própria vida. Jung apresentou esse conceito em seu livro Metamorfose e Símbolos da Libido, no qual chamou a energia psíquica também pelo nome de "libido". Nisto foi diferente de Freud (Sigmund Freud, 1856-1939), que atribuía à libido uma significação exclusivamente sexual. No conceito junguiano, a libido, ou energia psíquica, tem um sentido mais amplo, ligado ao instinto permanente de viver, e se manifesta por tudo o que providencia a manutenção da vida, como a fome, a sede e a sexualidade, mas também o entusiasmo, o interesse, a vontade, a resiliência. 
Resiliência? O que é isso? Mais uma vez a física: é a propriedade através da qual a energia armazenada em um corpo deformado por um choque, é devolvida quando cessa a tensão causadora da deformação. Em outras palavras, é a resistência de um corpo a um choque. A energia de um chute em uma bola a deforma - mas apenas por um instante, pois rapidamente essa energia é incorporada pela bola e transformada em deslocamento. Simples assim. 
Mas é bom que lembremos de um detalhe pra lá de importante: a bola é resiliente porque tem uma tensão interna própria, que permite transformar a energia externa em movimento. Bola murcha não vai longe, pois se deforma e não recupera a forma original. 
E o mesmo ocorre com as pessoas. Os choques que recebemos, e não são poucos, podem ser transformados em movimento, ou podem nos deformar e nos converter em uma massa amorfa e inerte, incapaz de reagir e de ir muito longe. A diferença entre essas duas possibilidades depende da calibragem interna, da energia psíquica, da libido, da presença de Eros, o deus da Vida, em contraposição a Tanatos, o deus da Morte. Bola cheia é redonda, firme, boa de pegar, erótica. Bola murcha é desagradável, repugnante, não responde, parece morta.
Para que possamos mandar a "bola pra frente" precisamos nós mesmos estar redondos, firmes, bons de pegar, eróticos. O oposto disso você já sabe... 
Jung diz que todos os fenômenos psíquicos são de natureza energética, e vê a psique em incessante dinamismo. Correntes de energia cruzam-se continuadamente. Tensões diferentes, pólos opostos, correntes em que a energia progride em um sentido e regride no outro sentido promovendo movimentos constantes, aos quais podemos chamar de "vida interior", responsáveis também pelo relacionamento com o mundo repleto de variáveis.

Fonte: Site de Eugênio Mussak: www.eugeniomussak.com.br
(Texto publicado sob licença da revista Superinteressante, Editora Abril.)

 

 

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